Labor Markets Adaptation to Inflation and Household Financial Behavior: Lessons From The Brazilian Case - Marcelo Neri

Maio, 1996

Sobre o livro: 

ADAPTAÇÃO DO MERCADO DE TRABALHO À INFLAÇÃO E O COMPORTAMENTO FINANCEIRO DAS FAMILIAS: LIÇÕES DO CASO BRASILEIRO¹

Esta monografia estuda a adaptação dos mercados de trabalho à alta inflação e alguns efeitos desse processo de adaptação no comportamento financeiro das familias. A recente experiência brasileira oferece dados usados na análise empírica. O objetivo central é avaliar como a combinação de inflação alta com um mercado de trabalho altamente regulado afetou as práticas de pagamento no Brasil durante os anos 1980 e começo dos anos 1990. Estudamos especificamente a evolução de dois aspectos das práticas de pagamentos: padrões de ajuste nominal das remuneracoes do trabalho e a frequência de pagamento destes rendimentos.

O segundo objetivo da monografia é mensurar o impacto das mudanças nas regulações trabalhistas sobre o comportamento financeiro dos domicílios. Especificamente, eu irei examinar dois aspectos do processo de decisão financeira: a) Períodos de Pagamentos e a Demanda por Agregados Monetários; b) Indexação Salarial e o Comportamento relacionado à Poupança no curto-prazo. Um problema chave a ser modelado aqui é a existência de conexões possíveis entre mudanças nas práticas de pagamento e quebras nas series de demanda por ativos financeiros.

Além desta introdução, a monografia consiste em quatro capítulos centrais:

(A) O Período de Pagamentos e a Demanda por Agregados Monetários

(B) Fontes da Rigidez das Práticas de Pagamento

(C) Inflação, Regulação e Padrões de Reajustes Salariais: Evidências Não-paramétricas a partir de Dados Longitudinais

(D) Inflação, Indexação Salarial e a Hipótese da Renda Permanente


[1]  Eu gostaria de agradecer ao meu orientador da tese David Card, ao segundo leitor Ben Bernanke e a meu orientador de metrado Angus Deaton pelos comentários valiosos fornecidos.


Por que estudar a experiência brasileira?

A resposta para essa pergunta depende de dois pontos: características institucionais e disponibilidade de dados. No caso brasileiro, a economia experimentou inflação alta por um longo período, assim, instituições e agentes ligados ao mercado de trabalho e ao mercado financeiro tiveram o incentivo e o tempo necessário para se adaptar a um ambiente com alta inflação.

Simultaneamente, a alta volatilidade inflacionária e mudanças institucionais associadas geraram grandes variações a serem explicadas. Muitas dessas mudanças institucionais ocorreram de forma abrupta em razão do lançamento de políticas de estabilização monetária, em geral mal sucedidas. Essas experiências nos oferecem um laboratório para testar diferentes modelos sobre como o mercado de trabalho e o mercado financeiro se adaptam à inflação.

O caso brasileiro também nos provê uma rica fonte de dados para testar esses modelos. Primeiramente, existem uma variedade de bases de microdados, incluindo extensas pesquisas cross-section e painéis que acompanham trabalhadores individualmente ao longo do tempo, além de pesquisas acerca das finanças e despesas dos consumidores brasileiros. Em segundo lugar, diferentemente da maioria das experiências inflacionárias, a economia brasileira apresenta um extenso uso de ativos regulados pela autoridade como substitutos ao dinheiro em circulação. Eu irei gerar estimativas mensais para a distribuição das frequências de pagamento de salários a partir da PME (Pesquisa Mensal do Emprego), que é uma pesquisa domiciliar. Isso significa que é possível testar efeitos monetários da adaptação dos mercados de trabalho à inflação usando séries de tempo mensais. Talvez ainda mais importante seja o aspecto longitudinal dos dados da PME, que nos permite identificar os padrões de ajustes salariais e mudanças nas práticas de pagamentos dos indivíduos ao longo do tempo. Esta monografia consiste em quatro capítulos centrais que serão brevemente descritos a seguir:

 

O Período de Pagamentos e a Demanda por Agregados Monetários

O primeiro capítulo analisa o impacto das mudanças na frequência de pagamento de salários (ex: mensal, semanal, etc.) na demanda por diferentes agregados monetários. O trabalho agrega informações da distribuição das frequências de pagamentos em uma série temporal do período médio de pagamento. O objetivo desse exercício é introduzir explicitamente uma variável para o período médio de pagamento nos modelos empiricos convencionais de demanda por agregados monetarios. O artigo sugere que a variável de periodicidade média de pagamentos e seus componentes não integra a equação de demanda por moeda estrita (M1) mas faz parte da demanda por agregados mais amplos (M4). Ambas evidencias estão em acordo com a teoria monetária embora insuficiente de acordo com motivos transação aplicados a moeda ampla.

 

Fontes da Rigidez das Práticas de Pagamento

O segundo capítulo estuda a determinação conjunta das práticas de pagamento entre firmas e empregados (i. e. frequências de pagamento de salários e datas de pagamento de salários) durante a alta inflação. O arcabouço proposto no artigo incorpora as seguintes fontes de rigidez das práticas de pagamento: a) interação entre decisões ótimas acerca dos períodos de pagamento e o portfólio das decisões entre firmas e empregados; b) a ocorrência de ineficiências de Pareto no processo de barganha entre firmas e empregados por conta de regulações salariais; c) a imposição de pisos nominais para salários que são invariantes para a data de pagamento escolhida; d) restrições inteiras na frequência de pagamentos. A parte empírica do artigo avalia a relevância dessas fontes de rigidez das práticas de pagamento usando microdados brasileiros.

 

Inflação, Regulação e Padrões de Ajustes Salariais: Evidências Não-paramétricas a partir de Dados Longitudinais

O terceiro capítulo oferece um primeiro passo na direção do desenvolvimento de uma metodologia para quantificar os efeitos da inflação e da regulação governamental na dinâmica de curto prazo dos rendimentos trabalhistas. O artigo também provê evidências acerca dos padrões de ajustes salariais adotados durante a recente experiência brasileira.

A grande variedade de regras oficiais de indexação salariais adotadas no Brasil durante as duas décadas aqui estudadas combinadas com a disponibilidade de pesquisas mensais sobre resultados trabalhistas fazem do Brasil um bom laboratório para testar como a regulação afeta a dinâmica dos rendimentos. Em particular, a combinação de grandes amostras de dados com a possibilidade de acompanhar o mesmo trabalhador ao longo de curtos períodos de tempo tornam possível estimar a distribuição cross-section das estatísticas longitudinais acerca do comportamento dos rendimentos trabalhistas (i. e. taxas de variação mensais e anuais). O panorama da distribuição cross-section das estatísticas longitudinais gerada através de dados atuais e artificiais de rendimentos nos permite avaliar visualmente o impacto da inflação e da regulação nos padrões de ajustes salariais.

A estratégia empírica adotada é comparar as distribuições de estatísticas longitudinais extraídas de dados atuais sobre os rendimentos trabalhistas e de simulações geradas a partir de reajustes mínimos requeridos impostos na Legislação Brasileira de Salários. A análise oferece uma série de medidas que apresentam a extensão das restrições impostas pelas Regulações da Legislação Brasileira de Salários. A análise visual da distribuição dos ajustes salariais também é útil para destacar fatos estilizados que podem levar a avaliações empíricas futuras.

 

Inflação, Indexação Salarial e a Teoria da Renda Permanente

O ultimo capítulo desta monografia estuda os efeitos da inflação e da indexação salarial no comportamento relacionado às poupanças de curto prazo nas unidades domiciliares. O artigo propõe um arcabouço de otimização intertemporal de utilidade no qual os indivíduos enfrentam um cenário de alta inflação e um sistema de indexação salarial que reestabelece o valor real dos rendimentos em intervalos fixos de tempo. Uma vez que nenhum tipo de empréstimo é permitido, a interação entre a tendência de queda real dos rendimentos entre os ajustes salariais e um processo padrão de suavização do consumo gera uma frequência alta de estoques de poupança. Apesar desses estoques de poupança serem relativamente modestos (até metade dos rendimentos mensais agregados), eles são extremamente sensíveis a mudanças na frequência de ajustes salariais.

O principal resultado testável é uma equação de demanda para ativos que cai com a frequência de ajustes salariais e aumenta com a taxa de inflação. O artigo mostra que a experiência brasileira recente apresenta elementos especiais que nos permitem estimar a equação de demanda por ativos proposta. A principal variável explicativa resume a evolução da Legislação Brasileira de Salários entre 1964 e 1989. Ademais, as quatro mudanças na frequência de ajustes salariais que ocorreram nesse período oferecem uma oportunidade de analisar os efeitos de ajustes observáveis no regime de indexação salarial (i.e. o processo microdinamico de renda) sobre as decisões de poupança das famílias.